Evidência científica

Treinamento parental: quais tipos de atuação existem?

O trabalho com os pais é parte importante das intervenções baseadas em evidências para o TEA e pode ser nomeado de ...


O trabalho com os pais é parte importante das intervenções baseadas em evidências para o TEA e pode ser nomeado de diversas formas. Dentre elas: treinamento parental, educação parental ou orientação parental. 

Essa variedade de nomes revela uma série de possibilidades de atuações com os cuidadores principais. Mas também gera uma certa confusão na área clínica: são nomes diferentes para a mesma coisa? São intervenções diferentes? Quais são as diferenças entre elas? 

Tal confusão impacta não só o estudo acadêmico/científico, mas também a própria atuação. Nesse texto discutimos  alguns modelos possíveis de atuação com os pais, diferenças entre eles e  implicações na atuação com crianças autistas.

Quais são os modelos de atuação com os pais? 

Existem diversas formas de atuar com os cuidadores de crianças no espectro do autismo, e cada uma delas têm objetivos e focos diferentes.

Um estudo de 2015, intitulado "Parent training in autism spectrum disorder: What`s in a name?" (Treinamento parental no Transtorno do Espectro Autista: o que significa?, em tradução para o português) procurou sistematizar quais intervenções fazem parte do que chamamos de treinamento parental

Segundo as autoras, há duas grandes categorias de atuação que fazem parte desse tipo de trabalho: 

  • Suporte parental;
  • Intervenção mediada pelos pais.

A seguir, segue uma breve descrição do que caracteriza essas categorias.

O que é suporte parental?

O suporte parental é composto por intervenções que beneficiam a criança de maneira indireta. Isso porque o foco está em oferecer suporte aos cuidadores e mais conhecimento sobre o diagnóstico de TEA. 

Desta forma, duas intervenções são características dessa categoria:

  • Psicoeducação: intervenções que oferecem conhecimento de qualidade sobre autismo;
  • Coordenação de cuidado: intervenções com foco em conectar as famílias aos serviços necessários para o cuidado da criança autista. 

A psicoeducação tem como objetivo oferecer informações atualizadas, e com suporte científico, às famílias. Assim, elas saberão quais intervenções são importantes, quais são perigosas e quais desafios podem encontrar durante o desenvolvimento da criança. 

Esse tipo de atuação têm demonstrado evidências em:

  1. aumentar o conhecimento dos cuidadores sobre autismo;
  2. aumentar a capacidade das famílias de defender os direitos da criança;
  3. diminuir o estresse dos pais;
  4. diminuir a sensação de isolamento. 

Já nas intervenções de coordenação de cuidado alguns estudos apontam que pelo menos 25% das famílias descrevem gastar 10 horas ou mais por semana coordenando os cuidados da criança.

Tamanho investimento de tempo é um dos fatores que sobrecarrega famílias de crianças autistas. Por isso, alguns pesquisadores defendem que haja mais integração e acesso aos serviços necessários para a saúde da população autista. 

Ainda são necessárias pesquisas que avaliem os efeitos das intervenções de coordenação de cuidado especificamente.

O que é intervenção mediada pelos pais? 

A intervenção mediada pelos pais é composta por intervenções que beneficiam a criança de maneira direta, pois tem como foco a aquisição de habilidades. Fazem parte dessa categoria tanto intervenções para alguns aspectos centrais do TEA, quanto intervenções para comportamentos desafiadores.

Alguns exemplos são:

  • Intervenções mediadas pelos pais para aspectos centrais do TEA: estratégias para promoção da comunicação social, imitação e comportamento de brincar;
  • Intervenções mediadas pelos pais para comportamentos desafiadores: estratégias para lidar com comportamentos disruptivos, problemas alimentares, dificuldades de sono ou no uso do banheiro.

Nessa categoria, pais ou cuidadores principais são os agentes da mudança de comportamento da criança. Apesar de haver alguns programas autoguiados, a maior parte deles é realizada com um profissional que faz o papel de treinar pais. Assim, essas pessoas cuidadoras vão conseguir ensinar as crianças de maneira adequada. 

Essas atuações demonstraram evidências de:

  1. aumento do engajamento da criança em atividades cotidianas e brincadeiras;
  2. melhora na comunicação;
  3. diminuição de comportamentos desafiadores (exemplo: recusa alimentar, recusa de cooperação na realização de atividades diárias).

Intervenções para comportamentos desafiadores têm grande importância tanto para pais, quanto para a criança no espectro. Esses comportamentos podem prejudicar a resposta da criança a intervenções educacionais, aumentar o isolamento dos pares e podem aumentar os níveis de estresse dos cuidadores.

Dessa forma, percebe-se que intervenções mediadas pelos pais têm efeito positivo, seja nos ganhos de habilidades da criança, seja no bem-estar dos cuidadores.

Suporte parental x intervenções mediadas pelos pais 

Como já descrito neste blog, um estudo de 2015 comparou intervenções focadas na educação dos pais a respeito do TEA (suporte parental) e intervenções mediadas pelos pais. 

Nas intervenções de suporte parental foram oferecidas aulas que ensinavam os cuidadores conteúdos sobre:

  • desenvolvimento infantil;
  • características centrais do TEA;
  • quais tratamentos têm sustentação científica. 

Enquanto na intervenção mediada pelos pais, o foco se deu no treino de:

Como resultados, os pesquisadores afirmaram que ambas as intervenções produziram efeitos positivos, diminuindo comportamentos desafiadores e a dificuldade dos pais em lidar com estes. Apesar disso, o treinamento parental apresentou resultados superiores

Isso aponta para uma possível conclusão: aprender sobre autismo é importante e pode ajudar muito as famílias, porém aprender como fazer o manejo adequado do comportamento da criança pode ajudar ainda mais seu desenvolvimento e trazer mais qualidade de vida para todo núcleo familiar.

Treinamento parental no autismo 

As intervenções com cuidadores de crianças com desenvolvimento típico que apresentam comportamentos disruptivos têm um alto suporte científico

Já no cenário do desenvolvimento atípico, essas intervenções estão menos sistematizadas e se apresentam com uma grande variedade de nomes. Apesar disso, a organização apresentada acima, proposta no artigo "Parent training in autism spectrum disorder: What`s in a name?”, pode ajudar na organização desse cenário, produzindo mais segurança para que profissionais e familiares saibam o que buscar em intervenções parentais.

Toda família que recebe o diagnóstico de TEA deve procurar por profissionais especializados que ofereçam também o treinamento parental

Quando devo procurar treinamento parental?

Atuações com os pais ou cuidadores principais de crianças com desenvolvimento atípico são importantes para:

  • pais saberem características gerais do TEA;
  • equilibrar expectativas quanto ao desenvolvimento da criança;
  • defender direitos da criança e da família;
  • aumentar habilidades de sociais (comunicar-se, brincar);
  • diminuir comportamentos desafiadores.

Portanto, se você é pessoa cuidadora de uma criança autista e precisa de ajuda em qualquer uma dessas áreas, o ideal é procurar profissionais que possam oferecer intervenções direcionadas a aumentar seu conhecimento sobre comportamento, autismo e, principalmente, suas habilidades no manejo do comportamento do seu filho.

Leia mais conteúdos sobre treinamento de pais e sobre o RUBI, um modelo de treinamento parental criado por Karen Bearss, membra do Conselho Clínico da Genial Care.

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