Evidência científica

O bem-estar dos pais é essencial para a criança com autismo

A preocupação com o bem-estar tem sido uma constante na vida de muitas famílias, especialmente durante a pandemia ...


A preocupação com o bem-estar tem sido uma constante na vida de muitas famílias, especialmente durante a pandemia provocada pelo novo coronavírus. No entanto, quando falamos de quem convive com o autismo, o fato do cuidador estar bem consigo mesmo é essencial e está ligado, também, ao desenvolvimento da criança com TEA. 

Quando falamos em bem-estar, podemos dizer que este conceito é bastante amplo e está ligado às necessidades e individualidades de cada pessoa.  Ele se refere não somente à saúde física, mas também a diversos outros estados: saúde mental, emocional, social, financeira, dos relacionamentos e espiritualidade. Assim, cabe a cada um de nós definir o que nos faz nos sentir plenos. 

A dificuldade em estabelecer metas e objetivos que vão auxiliar nesta busca pelo bem-estar é um problema comum em famílias de pessoas que estão no espectro do autismo. De acordo com os resultados oficiais do estudo Cuidando de quem cuida: um panorama sobre as famílias e o autismo no Brasil em 2020, 48% dos cuidadores define a falta de tempo para descansar e cuidar de si mesmo como a terceira principal dificuldade enfrentada nessa jornada. 

Neste artigo, apresentamos de forma mais detalhada critérios comuns que fazem parte deste conceito e sua importância científica, além de trazer instrumentos de suporte visual e exercícios práticos para incorporar ao seu dia a dia como cuidador que vão te ajudar a conquistar resultados positivos para você e toda sua família. 

Critérios básicos e comuns na busca pelo bem-estar

Conforme falamos anteriormente, apesar deste ser um conceito individual e único para cada pessoa, existem alguns instrumentos e suportes visuais que nos ajudam a entender melhor critérios comuns a todos. Citamos aqui três habilidades básicas que podem ser aplicadas na busca pelo bem-estar: comunicação funcional, engajamento ativo e regulação emocional

Comunicação funcional

É o meio pelo qual um indivíduo comunica espontaneamente seus desejos e necessidades de uma forma compreensível para os outros. A dificuldade com a comunicação verbal desregula a criança emocionalmente e gera um comportamento desafiador

Às vezes, é necessário pensar em instrumentos que vão auxiliar uma pessoa com dificuldade no desenvolvimento da fala a conseguir se expressar com uma comunicação funcional. Essa comunicação pode ocorrer de diversas formas, incluindo a fala, a troca de imagens, os gestos, a linguagem de sinais e os dispositivos auxiliares.

Engajamento ativo 

É a habilidade que nós temos de ficar envolvidos em uma situação. Isso significa interagir, ser produtivo, se comunicar e muitas outras ações. Sem engajamento ativo, você não responde ao que está acontecendo ao seu redor e não consegue se manter engajada e aberta para o aprendizado.

Em um jantar com amigos, por exemplo, você precisa estar engajado para se conectar com as pessoas, fazer seu pedido, recusar algo que não quer. Se engajar ativamente é você não se distrair, e quando falamos em crianças com autismo, ter um bom engajamento ativo também representa saber “resistir” quando confrontada com desafios ou mudanças.

Regulação emocional 

É a habilidade que um indivíduo tem de gerenciar seus próprios sentimentos, pensamentos e comportamentos. Descobrir estratégias e atividades que contribuam com a regulação das nossas emoções é essencial para o nosso dia a dia, para a saúde das nossas relações e principalmente para nós mesmos. 

Quando falamos de autismo, a regulação emocional ainda carrega outro fator: cuidar das emoções pode contribuir com a saúde do núcleo familiar como um todo e com o aprendizado do autista. Isso acontece porque se torna possível observar comportamentos e pensar quais estratégias e intervenções podem ser realizadas diante de uma situação desafiadora com a sua criança para que ela também aprenda como se expressar positivamente diante daquela questão.

Como avaliar suas necessidades e mensurar seu bem estar?

Um importante instrumento de suporte visual para conseguir avaliar como está nosso bem-estar é a Pirâmide de Maslow. Um conceito científico de hierarquia de necessidades proposta por Abraham Maslow, com objetivo de demonstrar conceitos essenciais de fisiologia, segurança, amor e relacionamento, estima e realização pessoal. Veja no exemplo a seguir:

pirâmide de maslow 

Criada em ordem crescente (de baixo para cima), na qual a base tem elementos mais importantes a se buscar primeiro, a hierarquia é formada pelos seguintes aspectos: 

  • Necessidades fisiológicas: se enquadram aqui alimentação, água, abrigo e sono. 
  • Segurança: do ponto de vista pessoal, emocional, da nossa família, corpo e propriedade. 
  • Amor e pertencimento: relacionamento amoroso, família, amigos e comunidade.
  • Autoestima: reconhecimento, status e autoestima emocional e física.
  • Realização pessoal: criatividade, talento e desenvolvimento pessoal. 

Por meio do desenho e do esquema, você pode fazer um exercício prático de separar cada um destes conceitos, avaliando de 1 a 5 (sendo 1 pouco satisfatório e 5 muito satisfatório) seu grau de contentamento com cada um dos aspectos citados na pirâmide de Maslow. 

Assim, você vai conseguir entender quais estratégias podem ser adotadas no seu dia a dia para aumentar aqueles com graus de pouca satisfação. Lembre-se de fazer isso sempre da base para o topo, conforme a própria organização de Maslow.

Exercícios para fazer em casa

Muitas pessoas acreditam que precisam começar com grandes mudanças e despender de muito tempo para alcançar o bem-estar. No entanto, especialistas afirmam que é possível fazer ajustes graduais na rotina que, se tornando hábitos, podem apresentar ganhos excelentes em todo núcleo familiar a curto, médio e longo prazo. 

Segundo a líder clínica da Genial Care, Ashley Curcio, especialista em análise do comportamento e educação especial e desenvolvimento infantil, com foco em famílias e crianças com deficiência, um hábito é formado quando há uma prática diária de, pelo menos, 21 dias. Diante disso, propomos abaixo dois exercícios para fazer em casa nas próximas três semanas: 

Exercite sua gratidão

A qualquer momento do dia, pegue um papel e escreva três coisas pelas quais você tem sido grato(a). 

A gratidão tem a capacidade de aumentar importantes neuroquímicos, como a dopamina, serotonina e oxitocina. Além disso, essa área está envolvida com sentimentos de recompensa – isso porque o estresse tem uma redução significativa que gera recompensa –, moralidade, vínculo interpessoal e interações sociais positivas, até a habilidade de entender o que outras pessoas estão pensando ou sentindo.

“Consistência é a chave. A gratidão se desenvolve por si mesma. Sabemos que o cérebro muda com a experiência, então quanto mais essa gratidão é praticada, mais o cérebro aprende a se sintonizar com as coisas positivas do mundo”, explica Ashley. 

Respire fundo 

Use o vídeo abaixo para treinar a respiração profunda e relaxar. Nele, você deve acompanhar a figura do peixe em quatro etapas: 

  1. Inspirando profundamente (por três segundos)
  2. Segurando a respiração (por três segundos)
  3. Expirando profundamente (também por três segundos)
  4. Mantendo a expiração pelo mesmo tempo. 
  5. A dica da Ashley é que você repita o processo por, pelo menos, três minutos.

Segundo Ashley, a respiração é uma das ferramentas de gerenciamento de estresse mais eficazes que existem e, mesmo assim, uma das mais negligenciadas.

“Sempre que estamos nervosos e alguém diz ‘continue respirando’, devemos ouvir. A respiração pode ter um efeito muito profundo no nosso estado de espírito e regula nosso sistema nervoso, nos tirando desse estado de reatividade. Eu sempre respiro três vezes profundamente quando preciso me regular emocionalmente”, conta.

Além disso, estudos mostram que exercícios respiratórios podem melhorar a função cognitiva, estimular processos de pensamento positivo e reduzir os sintomas de ansiedade. A melhor parte disso tudo? A respiração é algo que carregamos involuntariamente a cada segundo. Hora usá-la cada vez mais a nosso favor! 

regulação emocional

Quando repetir os exercícios e como mensurar resultados?

Por último, é importante entender quando você pode repetir esses exercícios. No caso da respiração, o ideal é praticar pelo menos uma vez por dia, ou sempre que tiver uma desregulação emocional e precisar pensar antes de agir. 

É importante anotar esse processo para conseguir verificar o quanto ele está sendo positivo na sua rotina. Tudo pronto, hora de começar essa busca pelo seu bem-estar! 

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