Evidência científica

Seletividade alimentar no autismo: quando se preocupar?

A seletividade alimentar é frequentemente associada ao diagnóstico de Transtorno do Espectro Autismo (TEA). E apesar ...


A seletividade alimentar é frequentemente associada ao diagnóstico de Transtorno do Espectro Autismo (TEA). E apesar deste padrão alimentar também ser visto em pessoas com desenvolvimento típico, crianças autistas têm 5 vezes mais chances de apresentarem dificuldades alimentares, do que crianças neurotípicas.

As principais características da chamada seletividade alimentar são:

  • comer uma pequena variedade de alimentos,
  • apenas comer alimentos com o mesmo padrão sensorial (cor, textura etc),
  • recusa em experimentar novos alimentos.

Devido a esse padrão alimentar rígido, é comum que pessoas com um comer seletivo não atinjam as necessidades nutricionais para um desenvolvimento saudável, já que a variedade de alimentos consumidos é bastante limitada. Isso faz com que haja déficits de nutrientes necessários para o funcionamento adequado do organismo. 

No artigo de hoje, falamos mais sobre a seletividade alimentar no autismo, características gerais, sua relação com TEA, a diferença entre seletividade e transtornos alimentares e quais intervenções baseadas em evidências podem ajudar nesse quadro diagnóstico.

Com que idade a seletividade alimentar aparece?

Geralmente, a seletividade alimentar surge antes dos 6 anos, no início da infância, sendo um padrão comportamental bastante comum de ser visto por pais e profissionais. 

Apesar de alguns estudos apontarem que esses padrões alimentares rígidos melhoram com o passar do tempo, adolescentes e adultos no espectro apresentam maiores taxas de seletividade alimentar, do que seus pares neurotípicos.

Em uma pesquisa realizada na Holanda em 2015, foram descritos dados de que 46% da população geral de crianças apresenta algum tipo de seletividade alimentar. Enquanto, uma a cada dez crianças apresenta padrões de restrição severos.

Devido a essa relação entre seletividade e autismo, veremos a seguir quais são os impactos na saúde que a seletividade alimentar causa e como lidar com eles. 

A seletividade alimentar é um transtorno alimentar?

Quando pensamos em Transtornos Alimentares (TA) é comum associarmos a preocupações com peso e imagem corporal, que são aspectos característicos dos TAs mais conhecidos como: Anorexia (AN), Bulimia (BN) e Compulsão Alimentar (CA).

Apesar dessas preocupações serem realmente frequentes nos quadros mencionados acima, existem transtornos que não giram em torno desses aspectos. É o caso do Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE), incluído em 2013 na quinta edição do DSM.

Os critérios diagnósticos do TARE são bastante parecidos com os descritos acima relacionados à seletividade alimentar. O que os diferencia é a intensidade do sofrimento emocional e o risco à saúde causado pelos comportamentos restritivos. Inclusive, muitas vezes o grau de sofrimento associado a essa condição pode ser semelhante ao vivido em quadros graves de transtornos alimentares como na anorexia. 

Os efeitos do TARE podem ser muito graves, tanto que em um artigo do The Guardian, de 2019, é relatada a história de um menino, na época com 12 anos, que perdeu permanentemente a visão, em decorrência da má nutrição, já que por sua dieta altamente restritiva não eram consumidos os nutrientes necessários.

Por isso, é preciso que pais e profissionais conheçam mais sobre esse quadro e sobre quais formas de atuação podem ajudar crianças e adultos com TEA que também apresentam TARE. 

Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE) e autismo

É comum que crianças neurotípicas e atípicas apresentem fases de recusa ou seletividade alimentar. Porém, aqueles diagnosticados com TARE têm um padrão alimentar rígido, pervasivo e consistente, causando problemas para:

  •  o desenvolvimento saudável e manutenção das funções corporais: já que não são consumidos os nutrientes e calorias necessárias,
  • socialização: já que há evitação de diferentes alimentos, diferentes preparações e diferentes apresentações das comidas.

Esse quadro diagnóstico é frequentemente visto em crianças e adolescentes autistas. Alguns estudos apontam que 20% daqueles diagnosticados com TARE também têm TEA. Além disso, há evidências que apontam que mais meninos apresentam esse quadro, e que um terço das crianças com TARE, também apresentam algum transtornos de humor, sendo o mais frequente o transtorno de ansiedade.

Dentre os principais sinais do TARE estão:

  • Pouco interesse em alimentos e em comer,
  • Evitação de alimentos baseada em suas características físicas: cor, textura, cheiro,
  • Medo de engasgar, vomitar ou se contaminar ao experimentar alimentos diferentes,
  • Queixas de dores de estômago ou sensação de estufamento perto das refeições,
  • Perda de peso,
  • Fadiga,
  • Problemas de sono,
  • Comprometimento social.

Veremos a seguir como podemos lidar com esses comportamentos.

Intervenções para TARE em pessoas autistas

Dentre as intervenções baseadas em evidências para TARE em pessoas autistas, aquelas baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) apresentam dados positivos

Em geral, esses tratamentos se baseiam em expor os alimentos evitados em conjunto com alimentos preferidos (ou outros estímulos reforçadores positivos), planejando sua retirada gradual, além do manejo de comportamentos desafiadores que podem ocorrer durante as refeições (como sair da mesa).

Em um estudo de revisão realizado em 2013, apesar dos autores levantarem problemas metodológicos nos estudos da área, as intervenções comportamentais produziram aumento no consumo calórico e no ganho de peso de crianças autistas com comportamento alimentar restritivo.

Esses  pesquisadores, além de orientarem que cientistas foquem em realizar estudos com metodologias mais rigorosas, apontam que as deficiências nutricionais devem ser um dos alvos principais nesses quadros.

Orientações para pais e profissionais

Para evitar que hajam complicações sérias decorrentes do TARE é importante que pais e profissionais fiquem de olho nos seguintes aspectos:

- A criança tem apresentado ganho de peso e altura adequados?

- A criança consome alimentos de todos os grupos alimentares?

- Há restrição de algum tipo de textura, cor, cheiro?

- Há restrição de algum tipo de preparo ou apresentação do alimento?

- Há restrição quanto ao contexto no qual há consumo alimentar?

- Há medo excessivo de engasgar, vomitar ou se contaminar com alimentos evitados?

Caso seja avaliado que há comprometimento nesses aspectos é necessária a busca por ajuda especializada o quanto antes, para assim evitar complicações decorrentes da má nutrição, como por exemplo dificuldades de sono, fadiga e comprometimento social.

Para saber mais sobre a ciência ABA e intervenções de qualidade para TEA, leia nosso blog.

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