Fundamentos

Habilidades sociais no autismo: como treiná-las?

Habilidades sociais é um termo muito ouvido quando falamos em autismo. Esse conjunto de comportamentos é alvo da maior ...


Habilidades sociais é um termo muito ouvido quando falamos em autismo. Esse conjunto de comportamentos é alvo da maior parte das intervenções para TEA. Porém, muitas vezes não fica claro quais são esses comportamentos e quais são as possíveis formas de treiná-los.

Vale lembrar que o treino das HS (como são conhecidas) pode ser benéfico para pessoas autistas de todas as idades, até mesmo aquelas que receberam o diagnóstico tardiamente, na vida adulta.

Nesse texto iremos explorar esses dois aspectos para te ajudar a entender: o que são habilidades sociais, qual a importância desses comportamentos e quais formas de atuação existem para o ensino dessas competências. Vamos lá?

O que são habilidades sociais?

Primeiro de tudo, é importante saber que na literatura científica não há consenso de quais comportamentos fazem parte das chamadas habilidades sociais. Inicialmente, os estudiosos desse campo descreviam habilidades sociais como comportamentos assertivos (expressão de sentimentos negativos e defesa de direitos pessoais). Porém, mais recentemente houve esforços para incluir outros comportamentos no conjunto de habilidades consideradas sociais, como a de comunicar sentimentos positivos

Apesar desse contexto pouco sistematizado, alguns pesquisadores têm se esforçado para descrever e definir este campo.  Esse é o objetivo do artigo "Habilidades sociais e análise do comportamento: compatibilidades e dissensões conceitual-metodológicas", no qual os autores apresentam diversas propostas de organização da área.

Uma das propostas descritas é a de Del Prette e Del Prette (2001), que propõem a seguinte categorização das habilidades sociais: 

  1. habilidades sociais de comunicação,
  2. habilidades sociais de civilidade,
  3. habilidade sociais assertivas de enfrentamento,
  4. habilidades sociais empáticas,
  5. habilidades sociais de trabalho,
  6. habilidades sociais de expressão de sentimentos positivos.

Todas as crianças, sejam elas com desenvolvimento típico ou atípico, precisam aprender como emitir esses comportamentos para que se desenvolvam de maneira saudável. Porém, em alguns casos é necessário que haja um contexto especial para o treino dessas habilidades, este é o caso de algumas pessoas autistas

Portanto, a seguir veremos qual a relação entre esses comportamentos e o autismo e como as intervenções focadas nessas habilidades podem ser realizadas.

Habilidades sociais e autismo

O Transtorno do Espectro Autista é definido como uma desordem do neurodesenvolvimento, tendo como uma de suas características principais a dificuldade na comunicação social. Dessa forma, um dos aspectos mais comuns apresentados por pessoas no espectro é um déficit, em maior ou menor grau, nesse conjunto de comportamentos sociais.

Esses déficits, se não aprimorados, podem causar dificuldades em muitas áreas da vida, como por exemplo: nas relações sociais, nas habilidades acadêmicas e na inclusão do mercado de trabalho. 

Alguns pesquisadores indicam que, se essas dificuldades não forem alvo de intervenções, com a chegada da adolescência podem piorar. Pois nesse período as relações sociais se tornam mais complexas, deixando mais evidente essa lacuna, aumentando o isolamento e o sofrimento relacionado a isso. Inclusive, há evidências de que déficits sociais predizem alterações de humor e problemas de ansiedade.

Devido a isso, o estudo das chamadas habilidades sociais é importante para profissionais e familiares que atuam junto a um indivíduo no espectro.

Como desenvolver habilidades sociais no autismo?

Assim como para outros déficits, a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é indicada para intervir nas dificuldades sociais de pessoas com TEA

Existem diversas formas de treinar esse conjunto de comportamentos. A seguir seguem estratégias possíveis para o ensino de habilidades sociais:

  • Histórias sociais: histórias especialmente desenvolvidas para o ensino de alguma habilidade social específica. Por exemplo: cria-se uma história na qual há um conflito que é solucionado pelo personagem utilizando algum tipo de competência social,
  • Intervenções mediadas por pares: ensino de alguma habilidade por meio da interação da criança com TEA com seus pares,
  • Modelação por vídeo: vídeos de pessoas realizando algum dos comportamentos alvo da intervenção, com o objetivo da criança imitar o comportamento em contexto semelhante,

As três intervenções mencionadas possuem status de práticas baseadas em evidências para o treino de habilidades sociais para crianças com TEA. Apesar disso, a que mais apresenta dados de efetividade é a modelação por vídeo. Dessa forma, estudiosos recomendam que a utilização de histórias sociais e intervenções mediadas por pares seja realizada em conjunto com o monitoramento do efeito da intervenção, já que é possível que sua efetividade seja limitada. 

Como a escola pode ajudar?

Três pesquisadores publicaram em um estudo de 2001 recomendações para o aumento da efetividade de intervenções de treino de habilidades sociais para crianças com múltiplas deficiências. Seis anos mais tarde, outros pesquisadores, revisaram e analisaram diversos estudos sobre treino de habilidades sociais e salientaram dentre essas recomendações, as quatro mais importantes:

  • Aumento da frequência da intervenção: aumentar o número de horas de intervenções focadas em habilidades sociais,
  • Setting: treino no ambiente natural,
  • Estratégia focada no déficit específico: escolha da estratégia de ensino a partir da habilidade que se quer treinar, por exemplo: diferenciar se é necessário que a criança adquira uma habilidade x ela tem essa habilidade, mas precisa aumentar a performance da mesma,
  • Fidelidade da intervenção: monitorar se a intervenção está sendo realizada da maneira planejada.

De acordo com esses pesquisadores, profissionais que atuam em escolas devem:

  1. Criar oportunidades para ensinar e reforçar habilidades sociais da maneira mais frequente possível. Especialmente as crianças com TEA precisam de treinos intensos e frequentes,
  2. Implementar intervenções em ambientes naturais. Essa preocupação se dá devido a algumas crianças no espectro poderem ter dificuldade em generalizar habilidades de um contexto para o outro,
  3. Fazer o esforço sistemático e intensivo de combinar as estratégias de ensino ao tipo de déficit de habilidade da criança,
  4. Coletar e registrar dados que atestem a fidelidade da intervenção. 

Como a família pode ajudar?

Como escrevi anteriormente no texto sobre treino parental, é imprescindível que as pessoas que fazem parte do cuidado da criança com TEA, sejam capacitadas por profissionais especializados a como manejar e manter comportamentos adquiridos a partir dos treinos promovidos pelas intervenções pautadas na ciência do comportamento aplicada (ABA). 

Dessa forma, se você cuida ou faz parte da vida de alguém com TEA, é importante que seja treinado para ajudar nesse processo de ensino de novas habilidades, especialmente as sociais, que serão usadas pelo jovem todos os dias.

Se você quer saber mais sobre como atuar com crianças e jovens com TEA, leia nossos outros textos do blog sobre: sexualidade e puberdade no autismo e crises de agressividade no autismo.

Você pode se interessar também

Receba novos conteúdos por email

Enviamos semanalmente novas edições da nossa newsletter, com conteúdos científicos sempre atualizados para você e sua família.