Evidência científica

Técnicas recomendadas para o autismo

Ao receber o diagnóstico de autismo, muitas famílias começam a procurar por ajuda e técnicas de ensino e aprendizagem ...


Ao receber o diagnóstico de autismo, muitas famílias começam a procurar por ajuda e técnicas de ensino e aprendizagem que vão auxiliar no desenvolvimento daquele indivíduo. Nesse momento, muitos ouvem uma expressão pela primeira vez: práticas baseadas em evidências. Mas afinal, o que significa esse termo? Como entender se uma intervenção é ou não baseada em evidências e como identificar o progresso da pessoa com autismo enquanto passa por esse tipo de terapia? 

Entendemos que o assunto pode trazer inúmeras dúvidas, especialmente para famílias de primeira viagem que ainda não sabem muito sobre o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Por isso, criamos esse texto para te explicar os detalhes mais importantes sobre intervenções que têm base em evidências científicas e como elas funcionam, na prática. 

O que são práticas baseadas em evidências científicas?

Primeiro, vamos começar pelo básico. Afinal de contas, o que são práticas baseadas em evidências científicas? Esse termo é usado para determinar um conjunto de procedimentos para os quais os pesquisadores forneceram um nível aceitável de pesquisa que mostra que a prática produz resultados positivos para crianças, jovens e ou adultos com TEA. Nesse caso, podemos dizer que a utilização desses resultados de pesquisas, por exemplo, serve como ferramenta para atingir a evolução com as necessidades do indivíduo. Ou seja, não é um “achismo”  funciona mesmo e é comprovado!

Em 2014, a Associação para a Ciência no Tratamento do Autismo (ASAT, na sigla em inglês), publicou o Evidence Based Medicine (EBM), que analisou 20 anos de intervenções para TEA em diversas áreas relacionadas à Análise do Comportamento Aplicada (ABA), e identificou a existência de 28 práticas baseadas em evidências para o TEA que atingiram todos os critérios propostos pela revisão. Destas, 23 eram baseadas nos princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

Um resumo sobre ABA

Falando um pouco sobre a Análise do Comportamento Aplicada, podemos dizer que, na prática, o que ela faz é desenvolver um estudo individual de cada pessoa e, a partir daí, elaborar estratégias que possam ajudar no desenvolvimento de habilidades e na redução de comportamentos desafiadores. 

Em um vídeo para seu canal no YouTube, o professor e especialista em educação especial Lucelmo Lacerda traz o seguinte cenário:  

“Imagina uma criança que só bate a cabeça. Tudo que ela faz é bater a cabeça. Aí você tenta um negócio para ela, não dá certo. Você tenta aquele outro método, também não dá certo. Você fala: essa aí não aprende. A pergunta que você tem que se fazer é: quando ela nasceu, ela batia a cabeça? Não. Então ela aprendeu a bater a cabeça. Ela aprende“.

Desse modo, ele explica que em uma situação como essa, o analista do comportamento estuda o indivíduo para entender como ele aprendeu a bater a cabeça e, consequentemente, como funciona em relação ao aprendizado num geral. A partir daí, são elaboradas estratégias de intervenção que substituem esse comportamento por outros mais funcionais.

As práticas com evidências científicas recomendadas para o autismo

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as práticas com evidências científicas recomendadas para pessoas com desenvolvimento atípico, especialmente autistas, são aquelas que têm como base os princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA). Dentro desta categoria, encontram-se ferramentas como: 

  1. Intervenção baseada em antecedentes: organização de eventos ou circunstâncias que precedem uma atividade ou demanda a fim de aumentar a ocorrência de um comportamento ou levar à redução dos comportamentos desafiadores.
  2. Comunicação alternativa e aumentativa: intervenções usando e /ou ensinando o uso de um sistema de comunicação que não é verbal/vocal que pode ser auxiliada (por exemplo, dispositivo, livro de comunicação) ou sem ajuda (por exemplo, linguagem de sinais)
  3. Intervenção de Momentum Comportamental: é uma série de solicitações que começam levando a pessoa a realizar coisas simples e/ou mais desejadas, criando um momentum que reforça engajamento e diminui a resistência de engajar em algo indesejado. Assim, a solicitação indesejada tem mais possibilidades de ser cumprida.
  4. Estratégias instrucionais Cognitivas-comportamentais: instruções sobre gestão ou controle de processos cognitivos que conduzem a mudanças de comportamento social ou acadêmico.
  5. Refoçamento Diferencial de comportamento Alternativo, Incompatível ou Outro Comportamento (DRA, DRI, DRO): um processo sistemático que aumenta o comportamento desejável ou a ausência de um comportamento indesejável, fornecendo consequências positivas para demonstração/não demonstração de tal comportamento. Estas consequências podem ser fornecidas quando o aluno está: a) engajado em um comportamento desejado específico diferente do comportamento indesejável, b) envolvido em um comportamento que é fisicamente impossível de fazer enquanto exibe o comportamento indesejável, ou c) não se envolve no comportamento indesejável.
  6. Instrução direta (DI): abordagem sistemática de ensino usando uma sequência instrucional com um pacote com protocolos ou lições em script. Enfatiza o diálogo do professor e do aluno por meio de respostas independentes dos alunos, e emprega correções de erro sistemáticas e explícitas para promover o domínio e a generalização.
  7. Ensino por tentativas discretas: pode ser usado para ensinar uma nova habilidade ou comportamento por meio de uma abordagem instrucional com tentativas em massa ou repetidas com cada tentativa consistindo na instrução/apresentação do professor, a resposta da criança, uma consequência cuidadosamente planejada e uma pausa antes de apresentar a próxima instrução.
  8. Exercício e movimento: pode melhorar a aptidão física e aumentar os comportamentos direcionados.
  9. Extinção: é um princípio comportamental que pode ser usado para diminuir ou eliminar um comportamento interferente, eliminando ou retendo as consequências que o provocam.
  10. Avaliação funcional: uma forma sistemática de determinar a função ou motivo de um comportamento para que um plano de intervenção eficaz possa ser desenvolvido.
  11. Treinamento de comunicação funcional: pode ser usado para substituir comportamentos desafiadores por comportamentos comunicativos mais apropriados e eficazes.
  12. Modelação: é usada para demonstrar visualmente uma habilidade ou comportamento para um aluno. Demonstração de um comportamento alvo desejado que resulta no uso do comportamento do aluno e que leva à aquisição do comportamento alvo.
  13. Musicoterapia: intervenção que incorpora canções, entonação melódica e/ou ritmo para apoiar a aprendizagem ou desempenho de habilidades/ comportamentos. Isso inclui musicoterapia, assim como outras intervenções que incorporam música para abordar habilidades específicas.
  14. Intervenção naturalística: consiste na aplicação de princípios de análise comportamental aplicada durante as rotinas e atividades diárias de um aluno  para promover, apoiar e encorajar naturalmente habilidades / comportamentos alvo.
  15. Intervenções implementadas pelos pais: implementação pelos pais de uma intervenção para seu filho que promova sua comunicação social ou outras habilidades ou diminua seu comportamento desafiador.
  16. Instrução e intervenção mediada por pares: apoia interações sociais positivas e significativas entre pares e alunos com autismo.
  17. Reforço: usado para aumentar as chances de um aluno com autismo a usar uma habilidade ou comportamento alvo.
  18. Dica: assistência verbal, gestual ou física dada aos alunos para apoiar eles a adquirem ou se envolverem em um comportamento ou habilidade direcionado.
  19. Bloqueio de respostas e redirecionamento: introdução de um comentário ou outras distrações quando um comportamento de interferência está ocorrendo. É projetado para desviar a atenção do aluno longe do comportamento interferente e resulta em sua redução.
  20. Autogestão: instrução com foco em alunos que discrimina comportamentos apropriados e inadequados, monitora, com precisão, e registra seus próprios comportamentos, recompensando o comportamento adequado.
  21. Integração sensorial: intervenções que visam a capacidade de uma pessoa de integrar informações sensoriais (visual, auditiva, tátil, proprioceptiva e vestibular) de seu corpo e ambiente, a fim de responder usando um comportamento organizado e adaptativo.
  22.  Narrativas sociais: ajudam os alunos com autismo a compreender as situações sociais e oferece exemplos de como responder nesse contexto.
  23. Treinamento de habilidades sociais: se refere à instrução dirigida por adultos usada para ensinar aos alunos maneiras de participar de forma adequada e com sucesso em suas interações com outras pessoas.
  24. Análise de tarefas: divide habilidades ou comportamentos alvo complexos em etapas menores. Os membros da equipe então trabalham com o aluno para ensinar sistematicamente as etapas individuais.
  25.  Instrução e intervenção auxiliada por tecnologia: referem-se à instrução ou intervenção em que a tecnologia é o recurso central de apoio à aquisição de um objetivo para o aluno.
  26. Atraso: uma prática usada para diminuir sistematicamente o uso de dicas durante as atividades de instrução, usando um breve atraso entre o instrução e a dica.
  27. Videomodelagem: demonstração do comportamento/habilidade gravada em vídeo para auxiliar o aluno na aprendizagem dessa habilidade
  28. Suportes visuais: exibição visual que ajuda o aluno a se envolver em um comportamento ou habilidades independentes de ajudas adicionais.

Existem ainda algumas abordagens mais novas que ainda não têm evidências científicas suficientes nas pesquisas. São elas: Denver, Floortime, Teacch e Musicoterapia.

 

Referências:

Autism Focused Intervention Resources & Modules

Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young

Adults with Autism

The National Professional Development Center on Auitism Spectrum Disorder

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